Domingo, Outubro 17, 2021
Ansiedade e Depressão

Ataques de Pânico? A culpa é da expectativa

Antes de receber o diagnóstico de depressão, assinado pelo meu querido psiquiatra, experienciei quatro episódios assustadores, dentro do meu peito, cujos sintomas mimetizaram um enfarte cardíaco. Procurei a medicina interna e a cardiologia, e os exames estavam sempre dentro dos parâmetros de normalidade.

O primeiro foi em casa, durante a noite, cerca de vinte minutos depois de adormecer. Fui despertada pelos batimentos acelerados do meu coração, suores frios, formigueiro na cabeça e falta de ar. Não conseguia respirar por muito que tentasse manter a calma, e inspirar lentamente. Entrei em pânico. Mas estava longe de imaginar que aquilo era um verdadeiro ataque de pânico carecente de apoio clínico. Pensei que estava a morrer. Para mim, o “pânico” era bastante subjectivo. Deitei-me no chão frio do meu quarto, e a respiração começou, naturalmente, a normalizar. Fiquei exausta. E nem sequer sei quanto tempo estive neste estado, se segundos, minutos ou horas.

O segundo foi no elevador, durante o dia, milésimos de segundos após eu perceber que a porta não abria. O elevador começou a diminuir de tamanho, o ar ficava retido nas narinas e não entrava “fundo” por muito que tentasse. O coração batia arrítmico no meu peito, pior do que os contratempos do thrash. 

O terceiro foi no metro, durante o dia, quando houve um problema de algumacoisaquefazpararmetros e ficamos retidos lá dentro. Hora de ponta, paredes pretas e pessoas a obstruir a minha passagem. Suores frios, tremores, formigueiro, tonturas… Apaguei. Acordei no mesmo segundo que caí em cima da senhora que estava sentada no banco ao lado, mas naquela confusão, ninguém reparou.

O quarto e último (espero) ataque de pânico foi em casa, durante a noite, a meio do meu sono profundo. Acordei em sobressalto. Coração em taquicardia, suores, formigueiro nas pernas e nos braços e vómitos. Pensei que estava a ter um ataque cardíaco ou um AVC e não consegui controlar a respiração. Sara, calma. Sara, calma. 

Todos estes episódios tiveram os mesmos sintomas, mas diferentes entre eles, digamos assim. Algo em mim não estava bem.

O transtorno do pânico, além de aparecer de forma inesperada e intempestiva, arrasta-nos para uma espiral de medo. Padecemos então do medo da sensação de morte iminente, que é o ataque de pânico, mas também do medo de sentir esse medo. Estive algum tempo neste estado de alerta que, com o tempo, tornou-se normal para mim. Eu vivia mal e nem sequer sabia disso.

No meu caso, o máximo que aconteceu foi voltar para casa e dizer a mim mesma “Hoje não estás bem, hoje vamos descansar”. Fiz isto uma vez, e não me permiti fazer mais vez nenhuma até à data. Nesse dia sentia-me agoniada, com aquela sensação de falta de ar que nos faz andar aos suspiros pelos cantos. Como já ia no meu terceiro ataque de pânico, e já sabia o que podia vir aí, deixei-me estar quietinha. No entanto, sei que um ataque de pânico pode ser incapacitante e capaz de devastar a vida de qualquer pessoa que não lhe dedique tempo e cuidado.

É tão necessário identificar a causa, como identificar e adquirir estratégias para controlar as nossas reações, assim que os gatilhos despoletam esta avalanche que nos cai pelo corpo abaixo.

Sendo que os meus ataques de pânico desapareceram quando eu procurei ajuda, e percebi as diversas causas que me levaram a implodir desta forma. Tentei, a todo o custo, fazer uma limpeza na minha vida, tal como faço na minha casa.

Comecei pelas gavetas. Abri gavetas com mais de vinte anos. Fechei outras com uma chave que trago ao peito. Outras foram fechadas para sempre. Outras abri e deixei arejar. Outras foram forradas com papéis finos de supermercado, dei-lhes mais uma oportunidade. Já outras gavetas foram forradas com tecido aveludado. Outras foram para o lixo, estavam podres. Optei por uma decoração minimalista, com tons claros e transparentes. Preto no branco. Ou é ou não é. Algumas paredes de vidro, mas muitas portas. Guardei apenas os tapetes mais resistentes, os escorregadios foram para o lixo, não podia contar com eles. Tenho luz e quero luz em tudo o que me rodeia, por dentro e por fora, para que eu possa ver com clareza quais caminhos quero e quais devo seguir. Para tanto, destruí o espelho das expectativas cujo nome desconhecia, e o pânico foi-se.

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