Sábado, Julho 31, 2021
Corpo livre

A necessidade de autoconfiança é assim tão necessária?

Quem já me leu, sabe que fui uma criança e adolescente, fora dos padrões de beleza ditos normais. O excesso de peso, a miopia e os óculos de fundo de garrafão, e falta de confiança nas minhas capacidades, sempre coagiram a minha proactividade. Tive sempre muitas dificuldades em dar o primeiro passo. Demorava muito tempo a pensar sobre as decisões que tinha de tomar, e quando agia, ficava sempre a pensar se tinha feito o certo ou não. Hoje, isto ainda acontece. Embora não demore muito tempo a equacionar o que devo ou não fazer, quando faço, fico sempre a pensar se não seria mais vantajoso ter feito de outra forma.

Mas alguém me compreende?

Quando percebi que a minha falta de confiança estava a afectar intimamente a minha vida, decidi iniciar um percurso de aprendizagem sobre este preditor de sucesso. Percebi desde o inicio, que o caminho seria longo. Comprei centenas de livros fatela de auto-ajuda/desenvolvimento pessoal. Procurei vídeos de pessoas que explicassem técnicas para aumentar a autoconfiança/auto-estima (até hoje, não sei muito bem diferencia-las). Tentei fazer alguns exercícios em frente ao espelho (podem rir), e com outras pessoas, numa tentativa falhada de me sentir mais confiante. Fiz algumas figuras ridículas, mas estava mais focada no meu processo interno, do que nas aparências advindas daí.

Cheguei à meditação, depois de ver muitas influencers a referir essa prática. Nunca resultou. A primeira vez, sentada no chão com as pernas à chinês, comecei a sentir cada fibra muscular dos meus glúteos, a pedirem para parar de os pressionar. Passaram mil pensamentos estúpidos na minha cabeça, que me levaram a sentir tudo, menos relaxamento. Fui convidada a sair da segunda aula, quando não controlei o riso na parte em que as outras pessoas começaram a fazer “om”. Sabem, ouvir vinte pessoas a dizer isso, em sintonia, é mesmo engraçado. Desisti da meditação. Pensei em bodypump, bodyjump e bodytudo, uma vez que, os especialistas eram bastante persistentes na relação do exercício fisico com a nossa saúde mental.  Descobri o Pilates. O Pilates consiste numa série de exercícios, feitos de forma suave, que promove o desenvolvimento muscular e a estabilidade corporal. Além de todos os benefícios que tem, a gestão de stress é, para mim, o melhor de todos. Consegui, com algum tempo de prática, controlar as minhas situações de ansiedade e pânico (explicarei melhor depois). Mas a minha confiança, pouco ou nada aumentou com isto. O exercício fisico apenas me relaxa, e me ajuda a ter consciência da necessidade em cuidar do corpo.

A autoconfiança/auto-estima, vem mais de dentro (Já faltava o cliché). Vir de dentro, significa, vir de nós para nós. Confuso? A autoconfiança pode definir-se quando sentimos que gostamos de nós, sem querer saber se os outros gostam ou não. Hoje, estou verdadeiramente a cagar-me, se os outros me aprovam ou não, embora eu nem sempre me aprove. Significa assumir a responsabilidade das nossas decisões, por confiarmos nos motivos que nos levaram a agir dessa forma. Significa dizer um não, quando determinada situação não nos inspira confiança. A autoconfiança ou auto-estima exige um relacionamento amoroso comigo mesma. Exige um compromisso leal comigo mesma, “na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, até que a morte nos separe”.

Embora com certezas de tudo o que estou a escrever, hoje, ainda não sei bem o que estes termos podem significar intrinsecamente. Sei que tenho fragilidades e idiossincrasias, por vezes típicas, de quem não entende nada de desenvolvimento pessoal (ou da vida). Mas não me importo com isso! Desculpem-me os coaches ou gurus da auto-ajuda, mas eu já aprendi a lidar com estas minhas imperfeições. Acho até que já gosto delas. A verdade é que crio alguns problemas ás pessoas mais próximas de mim, mas eles também me criam problemas a mim com as coisas deles. E agora, quem cede?

Em conclusão, quero dizer que, nem sempre temos de nos preocupar por considerarmos não ter determinadas características que as massas nos dizem que devemos ter. Se eu tiver baixa auto-estima mas não querer pensar sobre isso, é um direito meu. Se a minha falta de confiança me der mais prejuízo quando tento soluciona-la, do que quando ela se limita a ser simplesmente o que é, tenho todo o direito de decidir se vou adiar a sua resolução ou não. Durante anos, tentei esta busca de me elevar a um patamar confiante e seguro, mas sinto que esse patamar só é atingível, quando não o vejo como problema. Há dias, em que saio de casa e me sinto muito mal dentro do meu corpo ou da minha roupa. Há outros dias, em que me sinto a mulher mais poderosa do mundo. E reparem que o corpo é o mesmo (e a roupa, ás vezes, também).

A autoconfiança é mais um estado de espírito do que um lugar onde temos de chegar. Não vale a pena pensar, sequer, sobre isso. Afinal, a única confiança que temos de ter, é que tudo vai ficar bem.

6 thoughts on “A necessidade de autoconfiança é assim tão necessária?

  1. O meu percurso foi muito parecido. Fiz também tudo para chegar ao lugar certo, aquele em que apenas somos leves. Consegui mas so quando deixei de me dar tanta importância, quando me aceitei como sou, quando deixei de pensar nestas coisas, quando atirei tudo para o alto e deixei de ler livros que falam dos caminhos encontrados por outros, e, mais importante, quando as feridas interiores sararam porque perdoei quem me fez tanto mal…

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