Sábado, Julho 31, 2021
Corpo livre

Era uma salada, por favor.

Sempre fui gorda. Nasci com 4,5kg, e toda a gente sabe disso. A minha mãe, ou familiares próximos, faziam questão de me relembrar disso todos os aniversários:

Nasceste tão grande. Toda a gente ficou admirada com o teu peso. Pessoas desconhecidas iam visitar a tua mãe para conhecer a bebé de 4,5kg. Por isso é que és assim uma mulher forte.

Portanto, posso dizer que sou gorda desde que nasci. É verdade. E não tenho orgulho nesta afirmação, pois sempre sofri muito com a minha aparência. Aos 15 anos, pesava 60 kgs e tinha 1,66. Usava uns óculos com bastante graduação, de cor azulada e com algum brilho. Tinha um dente encavalitado, e as minhas roupas eram usadas contra mim. Era muito inocente e nunca me apercebi se realmente as pessoas pensavam sobre o meu aspecto ou não. O meu problema era mesmo comigo. Cresci numa família de mulheres magras (e medíocres). A minha mãe, embora equilibrada e distante de estereótipos, nunca percebeu o quão traumatizante era a ideia que ela me passava do meu corpo. Muitas vezes me incentivava a uma dieta, quando eu lhe perguntava se ela realmente me achava gorda.

Não precisas fazer dieta, basta que não comas porcarias. Faço uma sopinha ao jantar e ficas bem.

E eu ficava a pensar que talvez o meu caso fosse mesmo grave. Pois a minha mãe não ia sugerir que eu deixasse de comer pão com tulicreme, que me trazia tanta felicidade, se eu não precisasse mesmo de emagrecer.

Assim como sempre tive excesso de peso, também sempre tive pensamentos autodestrutivos. Quem gostaria de mim assim? Começava a pensar sobre mil dietas, treinos intensivos ou até vomitar depois de comer (o que aconteceu algumas vezes). Esperava as conversas certas para poder afirmar, à frente das pessoas, que eu tinha excesso de peso e que já estava a tratar disso, na esperança de ter um feedback. Por um lado, queria ouvir uma opinião contrária. Queria que me dissessem que era tonta por querer emagrecer, pois estava muito bem assim. Por outro lado, queria que me dissessem que eu estava monstruosa, numa tentativa de eu me enraivecer e ganhar força para conseguir começar ou manter um estilo de vida saudável. Os dias, semanas, meses e anos foram passando…
Aos 17 anos pesei 80 kgs, e comecei a usar roupas largas e escuras para disfarçar o meu corpo. Sentia que nenhum rapaz olhava para mim e compreendia-os. Talvez nem eu olhasse. Com esta idade, ainda não temos maturidade para conseguir ver o “interior” das pessoas. Temos hormonas aos saltos e só queremos tocar o que nos parece bonito. Percebia que eles me achavam muito gorda, e nem para amiga servia. “Ficava-lhes mal”. Penso que devo ter tido uma depressão (entendidos o dirão), pois durante um ano chorava quase todas as noites. Sentia-me muito grande, espaçosa e feia. E a verdade era mesmo essa. E quanto mais feia eu me sentia, mas feia me tornava. Comecei a desvalorizar-me cada vez mais. Sem qualquer auto-estima ou confiança. E nem sempre as amigas são as nossas melhores amigas, quando precisamos que o sejam. Comentavam nas minhas costas, umas com as outras, como eu era gorda e desleixada. Sugeriam que comesse menos. Diziam tudo o que queriam sem medo de me magoar. Para elas, eu era apenas uma gorda que permitia dizerem-me tudo o que lhes apetecesse com medo da rejeição, nunca era uma preocupação.

Decidi tentar fazer alguma coisa no verão. Passei três meses a andar de bicicleta. Todos os dias, sem excepção. Comia cereais com leite ao pequeno-almoço, raramente almoçava e jantava simplesmente salada. Perdi dez quilos, e felizmente não perdi saúde (não sei como). A minha vida começou a mudar. Fui estudar para outra cidade, sem qualquer registo do meu imc anterior. Pensava que estava dentro dos parâmetros normais do peso, mas rapidamente percebi que estava errada. Precisava de perder mais dez quilos para estar em forma. As dietas começaram a tomar conta de mim e não eu delas. Se um dia comia alimentos selecionados pelas calorias, no dia seguinte comia todos os chocolates que encontrava. Com isto, o ponteiro da balança não descia, e eu, algumas vezes, tentei vomitar. Não o fiz mais vezes pela sensação de morte iminente que tinha depois de cada puxo. Apetecia vomitar sempre mais, depois dos vómitos, e já nem suco gástrico tinha para mandar pela sanita. Não aguentava o cheiro e o travo que me ficava na boca.

Os dias, semanas, meses e anos foram passando… E continuei sempre com um reflexo acima do peso. Aos vinte e três anos pesava 63 kgs com 1,68 de altura. Estava gorda? Claro que não! Mas decidi emagrecer mais, após um turbulento fim de namoro. Deixei de comer, literalmente. Jantava uma salada de alface ou uma fruta. Bebia batidos e caminhava duas horas por dia, debaixo de um sol de Agosto. Andava sempre com pacotes de açúcar no bolso e sentia-me doente. Mas os resultados visuais estavam bons demais. Cheguei aos 55kgs. Senti-me feliz e realizada. Consegui manter durante um mês, pois assim que comecei a comer normalmente, engordei 14 kgs. Decidi então parar de lutar contra a balança, mas sobretudo, deixar de lutar contra mim.

Hoje, praticamente nos trinta, tento alimentar o meu corpo da melhor forma que sei. E percebi que não sei fazer dietas. Criam-me pressão e ansiedade. Adoro massas e pizzas com bastante queijo. Como pão, se me apetecer, e sei lá o que é o glúten. Faço ginásio para me manter saudável, sem qualquer tipo de obsessão. Se comer chocolate hoje, amanhã certamente estarei a correr na passadeira, e terei mais cuidado com o que vou jantar nos próximos dias. Embora, se me apetecer muito, outra vez, um chocolate, irei comer. Desculpem, mas já me estou a cagar se me acham gorda ou magra. Sei que tenho de me manter dentro de um certo peso, pois sinto-me mal se sentir os braços mais volumosos, as coxas a roçar uma na outra, ou a cara bolachuda. Mas isso não me foi imposto por ninguém, mas sim pelas análises que faço às minhas próprias constatações. Preocupo-me com o LDL e com a glicemia, placas de ateroma e com as crises de figadeira. Nunca com a vossa opinião.

É só um corpo. O meu corpo.

E foda-se o abacate.

11 thoughts on “Era uma salada, por favor.

  1. Um otimo depoimento. Se estas saudavel entao é o q importa. . .♡ foi inspirador ler este texto.parabens. Adoro mulheres reais e destemidas e nao as “barbies do fb” 🙂
    ANOTHER DESIGN BLOGG’IRL (ctigredesign.blogs.sapo.pt)

  2. “Foda-se o abacate” deveria ser um movimento na blogosfera! 👏
    Mais importante que ser-se magro (dentro dos estúpidos padrões que a sociedade insiste em impor) é ser-se saudável e feliz. Se um chocolate nos faz felizes, qual é o mal de nos deliciarmos de vez em quando? Obrigada pela partilha e principalmente pela aceitação que atingiu. Nada é mais bonito que uma mulher que se ama como é.

  3. Yeah se foda o abacate 🙂
    Obrigada pelo testemunho tão real e tão próximo.
    Sou tão feliz a comer que realmente tenho que fazer desporto para conseguir olhar-me no espelho sem pensamentos auto-destrutivos…mas nada é tão bom como saborear uma fatia de pizza ou um (ou 5) quadradinhos de chocolate.
    U rock girl

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