Terça-feira, Maio 11, 2021
Lifestyle

Pedras na areia

Sempre fui uma pessoa atenta a pormenores. Sou bastante crente na ciência, mas há algo dentro de mim que me faz acreditar em coisas, sei lá. Tenho o hábito (bem trabalhado) de entregar à vida aquilo que eu entendo que não me pertence, e ela que faça o que achar melhor. Embora seja altamente controladora, aprendi, com muito custo, a identificar aquilo que realmente eu posso controlar. O resto, deixo ir.

Este ano, o mar acolheu-me, mais uma vez. Tantas questões me surgiram, e tantas outras enterrei na areia. Tantas dúvidas e novos planos.

Nos últimos dias, deitada de papo para o sol, após comer a melhor bola de berlim, estiquei os braços para fora da toalha, e senti alguma coisa a tocar-me na mão.

De início, pareceu-me um pedaço de papel. Parecia um pedaço de alguma coisa frágil. Peguei, apertei, tentei partir para perceber o que era. -Isto não pode ser uma pedra, com esta aparência – Voltei a tentar partir, e nada. Era uma pedra. A pedra da imagem. Um coração. Voltei a tentar partir. (A imagem não dá para perceber o quão frágil parece esta pedra) Não partiu.

Pareces eu, pedra! Pareces frágil, mas depois, não quebras. -pensei.

Apertei a pedra na mão, sorri, e guardei-a dentro do saco. Rapidamente entrei numa espiral de respostas. Eu sou como a pedra, e as minhas relações sociais confirmam isso.

Devo ter um aspecto frágil, inseguro, submisso. O que contraria, no todo, a minha personalidade bem vincada, forte e inquebrável. O que acontece comigo, acontece exactamente o que aconteceu com a pedra. De início, pareceu-me diferente, aproximei-me, e pareceu-me frágil. Questionei-me, e tentei parti-la mais do que uma vez.  A pedra, inquebrável, manteve-se firme à sua essência. Limitou-se a ser o que é.

Trouxe-a comigo, e sei que vou guarda-la sempre.

Desde sempre, as minhas relações sociais foram baseadas nisto. Talvez a minha imagem (corte de cabelo, olhar, roupas, cores, etc) mostre uma mulher insegura, que não sabe reagir, fácil de manipular e que não consegue dizer que não. Talvez aparente ser submissa, para evitar confusões, ou “maltratada”. No entanto, enquanto aparento tudo isso, e as pessoas agem mediante a leitura que fazem, o meu lado assertivo, frontal e isento de qualquer filtro “não digo isto porque vão ficar a pensar mal de mim”, deixa as pessoas estupidamente confusas. Eu reparo nisso.

Há uns tempos, fui passear o meu cão, e naturalmente ele fez xixi perto de uma árvore em frente ao café que há na minha rua. O que incomoda algumas pessoas. Estava eu descansada e ouço uma voz feminina -“Opá, a sério!” – Quando me voltei para trás e percebi que estava a falar comigo, tirei os óculos de sol e respondi – Mas está a falar para mim, por acaso? – No meu tom mais arrogante (ainda não tinha tomado café). E que aconteceu? A mulher, continuou a olhar para mim com aquela expressão de quem está a pensar “ops”, fez um sorriso amarelo, e virou as costas. E isto, acontece-me sempre, em todas as áreas da minha vida. Sinto-me um lobo na pele de cordeiro, sem conotação negativa, claro. Aliás, para mim não tem, para os outros, já é outra história.

Com isto, muitas relações próximas, que me disseram tudo e mais alguma coisa porque eu era o “alvo frágil”, surpreenderam-se, e deram-me conotação bipolar, por eu, depois de saco cheio, lhes dizer o que realmente penso delas. Meteram-me um rótulo de ingrata ou má amiga, por eu, depois de perceber que já estavam a passar das marcas, decidir ir embora, sem dar muitas justificações.

Se há coisa que me irrita nas pessoas é precisamente isto. Agem e reagem condicionados pela imagem ou comportamento do outro. E isso é falta de personalidade, princípios e valores. Sou uma inadaptada às normas de comunicação interpessoal, eu sei, mas prefiro ser como a pedra.

Algarve, 2018

 

3 thoughts on “Pedras na areia

  1. Sabes, és um prazer de ler. Temos coisas em comum e outras nem tanto, mas acho que devo ser um bocadinho de nada mais velha que tu e posso dizer te que com o tempo a certeza do que és e do queres, do que tu aceitas dos outros e o que aceitas que os outros tenham de ti torna-se uma certeza avassaladora. Em que os medos existem mas são uma escolha, em que as dúvidas deixam de ser grandes ou pequenas para serem apenas uma decisão. És mesmo um gosto ler. E a pedra vai ser apenas uma lembrança do quanto cresceste desde então. Bjcas gdes 🙂

      1. Tenho mais 10 anos 🙂 lembras me muito de mim há uns anos atrás, daí os teus textos serem uma delícia de ler 🙂 daqui a 10 anos falamos :p

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