Domingo, Outubro 17, 2021
Lifestyle

O meu aniversário

A minha mãe foi a primeira a enviar-me mensagem pelo facebook. Ela sempre foi a primeira. E curiosamente, sempre me parabenizou da mesma forma:

Parabéns, filha. Faz hoje vinte e nove anos, por esta hora, que estava eu no hospital cheia de dores, a chamar nomes feios às enfermeiras por não me ajudarem. Foi horrível. Estive quase um mês sem me mexer por causa dos pontos. Nasceste enorme, com quase cinco quilos. Quem viu, nem acreditava. Por isso é que sempre foste assim… gordinha

Quando eu era pequena, ela passava os dias antes do meu aniversário a relembrar-me que o dia vinte e um estava a chegar. Falávamos sobre o aspecto do bolo, o presente, a festa de família e a festa da escola, que sempre superaram a minha imaginação. À medida que a tecnologia foi evoluindo, ela criava notas no calendário que a notificavam do meu aniversário à meia-noite. Assim que o relógio marcava as 00:00, ela entrava no quarto para me dar um beijo. Com o tempo, as festas de balões deram lugar a jantares de grupo, no fast-food mais próximo, onde cada um pagava o seu. Situação inconcebível para os princípios do meu pai. – “Então convidas os amigos para um jantar, e eles é que pagam? Os jovens de hoje em dia não vão a lado nenhum, realmente.”
Actualmente, têm as redes sociais como auxiliar de memória:

“Sua conexão filha faz anos. Envie-lhe energias positivas”.

E agora nunca sei se ela realmente se lembra deste dia, ou se apenas se lembra porque o Ipad lhe envia um lembrete. O estranho é que, ainda assim, ela consegue ser sempre a primeira.
Recebi centenas de notificações e mensagens por ter sobrevivido até aqui. Nunca percebi muito bem o entusiasmo deste dia. O porquê de celebrarmos menos um ano de vida. O mais anómalo, da minha perspectiva, é que somos nós que convidamos as pessoas de quem mais gostamos para se sentarem à volta de uma mesa, olhando fixamente para nós enquanto cantam e sorriem. E nós, cheios de vergonha, nunca conseguimos contornar esse estado de espírito, por muitos aniversários que passemos. Ficamos quietos e com cara de parvos à espera das palmas. Chegam os abraços e beijos. Sopramos as velas e há sempre alguém, lá do fundo, que diz para as trincarmos (mesmo sabendo que ficam coladas nos dentes), e pedir um desejo. Confesso que a pressão é tanta que nunca consigo pensar em nada muito coerente.

Quero ser feliz…
Ah, não! Este ano precisava mesmo era de dinheiro… Peço para ser feliz no próximo aniversário, ainda aguento umas lágrimas até lá, se tiver dinheiro.
Ah, espera. Tenho de terminar a tese.
E a saúde? Afinal, desejo ter muita saúde.
Não! Quero mesmo o euromilhões.

E que dicotomia. Parabéns por chegarmos até aqui sem morrer, e Parabéns por estarmos mais um ano perto da morte.
Não será intenção desse ritual preparar-nos, por exemplo, para o nosso ano zero? Ano zero porque é o ano em que tudo se acaba. Qualquer valor nessa data é igual a zero. Não existe mais nada para nós, nesse ano. O ano em que os amigos se reunem pela última vez à nossa volta, a felicitar-nos por todos os anos que nos cantaram a happy birthay to you. Há velas. Há bolos. E nós continuamos presentes, no centro das atenções.

Cheguei aos 29. A idade que na prática se chama: quase nos 30. Estava na hora de criar um blog…

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