Sábado, Julho 31, 2021
Lifestyle

A maravilhosa vida do Instagram

A minha vida (e a percepção desta) foi ligeiramente alterada depois de conhecer o Instagram.

Nunca, ao longo de quase 30 anos, me dei ao trabalho de organizar comida no prato. A alface era cortada com muita pressa e pouco aperfeiçoamento. O milho misturado com pimentos vermelhos, que se perdiam entre os cubos de tomate cortados às três pancadas. O arroz misturado com feijão num prato velho de porcelana, e os copos deixaram de fazer sentido quando fui viver sozinha, e não havia mais ninguém para partilhar a garrafa de água.

Acordo meia hora depois do despertador. Ainda estou a preparar o pequeno almoço e já recebo notificações com imagens do Tumblr cheia de pensamentos positivos. E foda-se o pensamento positivo, quando ainda nem sequer tomei café. As manhãs começam sempre com imagens de chávenas personalizadas e panquecas de aveia com banana, a lembrar-me que talvez as belVita que meti na mala, para comer pelo caminho, não sejam a opção mais saudável. O meu cérebro começa a condenar as minhas opções, e imediatamente lembro-me que preciso emagrecer para o verão.

O dia comeca mal.

Fecho o instagram e sigo para o trabalho. No mundo real, a maior parte dos trabalhos são de merda e pouco atraentes, para se exibir nas redes sociais. Não é o meu caso, mas podia ser. Comprometo-me a não olhar para o telemóvel naquele dia, mas o hábito veio para ficar. Deslizo o polegar, para cima e para baixo,  com a ânsia de uma viciada à procura da dose diária. E são infinitas, as fotos em bikini ou tankini, na praia ou na piscina, exibindo corpos magros e trabalhados. Acessórios e beachwear dos recebidos. Vídeo novo no canal, e swipe up everywhere.

Começo a pensar sobre muitas coisas…

Passo grande parte da manhã a olhar para o telemóvel com intuito de ver as horas, mas a verdade é que também me apetece receber notificações das redes sociais, e ficar a par do que está a acontecer no mundo das pessoas.

Percebo então que fico ansiosa para o meu dia terminar. Depois disso começo a pensar que faltam apenas dois dias para o fim-de-semana, e sinto um alívio incrível. A semana traduz-se apenas em trabalho e começo a ponderar sobre os lugares que quero visitar no sábado. Organizo uma agenda mental com alguns sítios que outras pessoas partilharam, incluindo idas ao ginásio, praia, e o melhor sítio para o brunch. Sorrio, e penso que terei um fim-de-semana feliz. Não me engano, mas o domingo torna-se deprimente por saber que segunda-feira tenho de voltar à rotina. Começo a ficar ansiosa. Como seria bom prolongar este fim-de-semana.

Abro as redes sociais novamente. Fotografias de copos e sushi entre amigos. Amigos de sorrio na cara, que colocam os braços nos braços uns dos outros. Parece tudo tão feliz, e eu com o gato nas pernas a pensar que seria bom ter a sala cheia como aquela que está na publicação.

Conforto-me com a reforma. Um dia, vou apenas ganhar o dinheiro que descontei ao longo destes anos, e terei muitas imagens daquelas. Até lá, tenho de trabalhar, sem grande tempo para algazarras.

Mas que estupidez estou eu a pensar?

O Instagram mostra-nos a lifestyle de quem, aparentemente, vive todos os dias bem e sorridente. Mostra-nos uma vida de luxo, quando comparada com a nossa. E, erroneamente, embarca-mos no desejo de ter uma vida igual, o carro igual, as roupas iguais, o perfume igual, etc. E fazemos de tudo para conseguir ter aquela carteira ou aquela máscara MAC caríssima. E depois? Tudo é expectativa. Depois de suprir esse desejo, queremos outro atrás de outro. E voltamos a abrir o feed para ver qual o novo produto para o qual temos de arranjar dinheiro, e ir comprar.

Pergunto-me se somos realmente felizes assim? Se é possivel viver num mundo de seguidores em que nos esquecemos de nos seguir a nós próprios.

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