Sábado, Julho 31, 2021
Lifestyle

Chorei mais quando vi a minha mãe de sapatilhas, do que quando descobri que ela tinha cancro.

Foi diagnosticado, à minha mãe, um tumor maligno na mama.

Eu estava de férias quando recebi a notícia, e tranquilamente pensei: Primeiro, preciso de saber o tipo de cancro que é, tratamento e prognóstico, depois logo se vê. Mais, se ela sentiu o tumor há pouco tempo, como diz, mesmo que seja um tipo agressivo, certamente é precoce e vai correr bem. 

Nesse dia fui para a praia, mergulhei no mar como nunca havia feito, consciente dos perigos mas sem medos. Senti-me imediatamente diferente. Algo em mim estava mais desperto, mais vivo, mais racional mas mais destemido. Não sei explicar.

Entrei em casa e contei ao meu namorado.

A minha mãe tem cancro. Mas vai correr tudo bem, porque ela palpou o tumor há pouco tempo, logo deve estar num estado inicial. 

-Cancro? Mas já fez os exames? É mesmo cancro? – perguntou.

-Vai ter de fazer biópsia, mas tudo indica que sim. Disse-me que o “caroço” está a puxar a pele, logo está preso aos tecidos, é duro e não se mexe. Não dói. É cancro. Penso que já foi ao médico entretanto, e pediu-lhe um série de exames. É cancro. 

Nesta altura eu já estava abalada, obviamente, mas o meu lado racional depressa arranjou mecanismos de defesa para eu estar preparada para uma má notícia.

Continuei de férias, sempre consciente do que podia acontecer, mas crente de que tudo iria correr bem.

Nunca chorei. Voltei ao mar todos os dias, com fé na vida, e no fundo estava grata por ela ter percebido o tumor precocemente.

Que cérebro o meu. Eu nem sabia sequer se era cancro, muito menos em que fase estava. Mas eu não conseguia sequer imaginar outra situação. Para mim, era exactamente assim que seria.

Por acaso, assim foi.

Estado precoce. Fez cirurgia. Correu tudo bem. Boa recuperação. Radioterapia. E uma força incrível.

Nunca chorei. Nunca.

Um dia, fui ter com ela ao IPO. Estava na sala de espera para a consulta da Radioterapia. Ao fundo, vejo-a serena, relaxada e a mexer no telemóvel. Aproximei-me confiante, como sempre. Falamos, rimos, esperamos. Mas quando ela se levantou e eu a vi tão “pequenina”, senti um nó na garganta como se alguém estivesse a estrangular-me.

Vou explicar:

A minha mãe sempre usou salto alto. SEMPRE. Até quando ia despejar o lixo. Quando íamos ás compras, eu sugeria umas sabrinas ou sandálias rasas, mas ela nunca quis.

Eu gosto de me sentir alta, Sara. Não quero nada raso – dizia-me.

Naquele dia, ela estava de sapatilhas. A minha mãe, que não largava os saltos por nenhum decreto.

Entrei em choque. Fui invadida por mil pensamentos, medos, sensação de impotência, perda, etc. Tudo de mal. Controlei-me, mas chorei o caminho todo de volta para casa.

Ela estava debilitada, e a envelhecer. E eu não tinha percebido isso.

Que tonta! Não chorei quando soube do diagnóstico, mas chorei por vê-la de sapatilhas. A verdade é que senti a imagem de uma mãe forte a quebrar-se. Senti que eu teria de ser a mãe dela e talvez não soubesse dar conta do recado. Senti que não podia ser o seu amparo emocional porque ela não iria desabafar os seus medos, para não me preocupar, como sempre fez. Senti que, além dos medos dela, também ela sentiria medo dos meus. Senti que ela talvez quisesse falar mais sobre a doença, mas ia fazer de conta que nem se lembrava disso. Senti-me impotente.

Mas a minha mãe é fantástica. E mesmo sem eu falar, ela sabe o que sinto em relação a tudo.

A minha mãe é guerreira. Mas não é aquela guerreira de armas e canhões. É uma guerreira que ganha todas as batalhas com sorrisos e genuinidade, com verdade e com pensamento positivo. A minha mãe é das pessoas mais naturais e serenas que conheço. Naturalmente serena? Não. Mas ela é óptima a esconder o caos que, muitas vezes, lhe vai na alma. A minha mãe pode estar com medos nesta fase e sensação de fraqueza, mas eu sei que a força dela lhe irá mostrar o contrário. A minha mãe sabe que eu a admiro, e também por isso, luta, de cabeça erguida, para me dar o exemplo. A minha mãe sabe que é a minha melhor amiga, e sei que ela nunca vai desistir, pois mesmo que, um dia, queira desistir dela, ela nunca desistirá de mim.

A minha mãe não tem cancro. Tirou-o na cirurgia.

-Fui operada, os médicos tiraram-me o tumor e ficou para lá. Certamente foi para o lixo. Acho que ninguém o quer. Tenho lá cancro… Agora é que não tenho nada. – responde, quando alguém a questiona sobre o cancro.

Actualmente está a fazer radioterapia, e está tudo a correr bem. Vai correr bem. E é com este pensamento que ela vai todos os dias para o hospital. Ainda que com medos, vai sempre de sorriso nos lábios. Um exemplo. O meu melhor exemplo.

 

A todas as mulheres que lutam contra o cancro da mama, o meu abraço e mil beijos. A todos os funcionários do IPO, desde o porteiro, voluntários, senhoras do bar e secretaria, auxiliares, enfermeiros, técnicos e médicos, o meu obrigada mais verdadeiro.

 

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