Terça-feira, Maio 11, 2021
Lifestyle

Há um cansaço em mim

Esta coisa de um dia ser atrás do outro, é bastante cansativa. Vivemos numa distopia, que nem damos conta disso.
O meu dia em vigília tem uma média de dezasseis horas, e nunca é suficiente para concluir todas as tarefas diárias. O despertador acorda-me entre as seis e sete da manhã. Espreguiço enquanto vejo, pelo canto do olho, as notificações no ecrã do telemóvel. Começo o dia com caracteres alfanuméricos e gráficos que resumem a qualidade do meu sono da noite anterior. Faço a minha higiene matinal e penso nas coisas que tenho para fazer. Pelo meio, altero as configurações da fitbit. O nível de stress começa a aumentar. Tento combinar as poucas peças de roupa que estão lavadas e engomadas. E saio de casa a correr, sempre.

Os dias são quase todos iguais. Entro no carro e sigo para o trabalho ou faculdade. O trânsito é stressante, um pára-arranca que me irrita, e muitas vezes me leva a comunicar com os outros através da linguagem gestual. Percebo que odeio trânsito e condutores. Mas isto, em nada se compara às complexidades dos transportes públicos. Um entra e sai de gente nas paragens, vozes cansadas ou irritadas, motoristas fartos dessas vozes, uma perda de tempo entre o “quero um bilhete” e o “porque não tirou o bilhete?”, atrasos e greves. A motivação reduz em 50% para ter um bom dia.

Sinto que somos absorvidos pela pressa de quem tem horários a cumprir.

Os finais de dia também me parecem todos iguais. Percebo que já passa da hora de jantar, e o ginásio terá de ficar para outro dia, como sempre. Olho a roupa acumulada em cima da cadeira do quarto, e espero que amanhã esteja sol para que seque rápido. Estou a ficar sem roupa interior.
As palavras trocadas durante as refeições reduzem-se a um “tiveste um bom dia? Sim, igual. E tu, também?”. Há um cansaço irreconhecível, que se traduz num diálogo pobre e estereotipado. Até apetece falar do dia enfartado que tive, mas para quê dar importância a isso? Foi só um dia, como todos os outros.

Há loiça para lavar, chão para aspirar, lixo para despejar, cão para passear, gato para alimentar, roupa para engomar, e-mails para responder e contas para pagar. Com isto, percebo que já passa da meia-noite, e assim, aos tropeços pelo corredor, deito-me na cama. Aconchego-me com a t-shirt cheia de nódoas, que vesti quando cheguei a casa. Cinco minutos. São apenas cinco minutos a relaxar, e depois vou vestir o pijama e tirar esta maquilhagem para dormir melhor. Aproveito e escolho já alguma coisa para ver na Netflix antes de dormir. Mas adormeço entretanto, com a máscara a colar-me as pestanas, a base a engordurar a minha pele, e a t-shirt que me envergonhará se acontecer uma emergência durante a noite, e não tiver tempo de vestir outra.

Preciso de dias livres entre os dias ocupados. Preciso de mais tempo para mim. Ninguém aguenta este cansaço.

2 thoughts on “Há um cansaço em mim

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