Domingo, Outubro 17, 2021
Lifestyle

O que não me contaram sobre a faculdade

Foi no secundário que fiz a minha primeira tentativa de uma directa. Eu e a minha melhor amiga, combinamos ficar acordadas durante a noite. Para que ninguém adormecesse, ficamos em chamada a noite toda. Adormeci por volta das seis da manhã. Ela adormeceu por volta das sete. Experimentei a pior cefaleia de sempre. A dor irradiava para os olhos de tal forma, que tive de os fechar. Adormeci na aula de Português. Apenas alguns colegas repararam, e despertaram-me antes da professora perceber que eu estava a roncar. Nesse dia, liguei ao meu pai para me ir buscar. Inventei que me sentia doente, e precisava descansar. Teve de acreditar. Olhar para a minha cara era suficiente para perceber que eu não estava muito bem. Mas era apenas sono. Nunca mais tentei ficar acordada durante noite, e jurei mesmo não voltar a fazê-lo. Obviamente que quebrei esse juramento no meu primeiro ano de faculdade.
Enquanto não saíam as colocações, os meus pais diziam-me que difícil seria entrar. O resto depois lá ia fazendo. Acreditei.

O medo é o primeiro a chegar. Medo misturado com aquele entusiasmo do “vamos lá experimentar isto”. A novidade é atraente, e viver com pessoas que compreendem as nossas ressacas, é tentador demais. Vamos conhecer novos amigos, e com eles, beber um cerveja numa esplanada. Ninguém nos conhece, podemos recriar o nosso eu à nossa maneira. Quem queremos ser agora? Que erros cometi com os amigos do secundário que não posso cometer aqui? Que reputação tinha eu que agora vou ter de ocultar? Vou dizer que sou virgem e nem sequer bebo álcool, ou digo que já me embebedei e fiz sexo com o meu namorado num wc público? O que significa ser a caloira do ano? E ser a miúda que arranja apontamentos das aulas, é esquisito ou espectacular?

Seguimos na primeira viagem, com a mala cheia de acessórios da tupperware. Sopa congelada, latas de atum, espaguete, bolachas, iogurtes e cereais. As roupas engomadas para a semana e uns trocos para o pingo ou a meia de leite.
Percebemos nas primeiras semanas, que os nossos colegas de casa não são assim tão espectaculares quanto idealizamos. O horário da limpeza de casa é inflexível, e nem sequer querem saber se isso nos pode prejudicar. O barulho que fazemos dentro do nosso quarto, muitas vezes se torna ensurdecedor para eles. E há sempre um esquisito, que insinua que a comida dele anda a desaparecer. Ir para casa já não é tão bom, o que nos faz visitar muitas vezes a casa das amigas. O ideal seria viver com a amiga de curso com quem já apanhamos bebedeiras nas festas académicas.

E é com essa convicção, que fazemos planos para vivermos juntas, no próximo ano lectivo.

Decidimos que vamos ter de estudar a sério, no final do verão. Compramos estojos a combinar com cadernos, que nunca vamos utilizar. As fotocópias ou apontamentos de uma colega, que nem sabemos quem é, servem para o nove e meio, necessário para aprovação (nem sempre).
Acaba o leite para os cereais, e decidimos misturar com o último iogurte líquido que há no frigorífico. Recriminámos-nos. Decidimos fazer compras no dia seguinte que, regra geral, são interrompidas por aquele fino fresco com tremoços, depois das aulas. Seguimos a política falaciosa do “só mais um e já vou”. No final, nunca vamos.
Vem a época de exames, intercalada com noites de descanso/celebração por ter feito mais um exame. Se no início do ano, garantimos uma pauta cheia de dezasseis, nesta fase rezamos para que o professor se engane a corrigir o teste, somando a cotação para o nove e meio.
Os professores não são acessíveis como no secundário, mas muitas vezes, têm alunos preferidos. Os testes vão ter sempre questões que ninguém sabe, e perguntas que pensamos saber. Percebemos que nem sempre o melhor aluno é aquele que estuda todos os dias, mas sim aquele que copia ou arranja estratégias de estudo de última hora. Quanta injustiça. Mas é assim que a coisa funciona. Um ano inteiro de estudo, e vindo directamente de uma noite de copos, chega um aluno desconhecido à sala para fazer o teste, e passa com boa nota. Isto sim, é um facada nas costas, mas dada pela nossa estupidez.
Desejamos férias. Queremos descansar dos exames e dos trabalhos de grupo. Queremos estar um dia, pelo menos, sem ter de pensar que temos alguma coisa para fazer.
As férias chegam. E começamos a pensar que no próximo ano lectivo tudo será diferente: vamos estudar desde o início e ir às aulas todas; dormir mais; beber menos; escolher uma boa amiga para partilhar a casa, etc…

Seguimos na primeira viagem, desta vez com a mala cheia de um ano de aprendizagem, que decidimos não colocar em prática. O frigorífico vai continuar sem reposições de leite para os cereais, e os cadernos vão continuar em branco. Percebemos nas primeiras semanas que escolhemos mal a colega de casa, e que o ideal seria a outra colega com quem fomos para a queima do ano passado. Voltámos a sentar na esplanada com os amigos, e a pedir “mais um” até de manhã.
Tudo continua igual. A única diferença é que, no segundo ano de faculdade, ligámos mais vezes para os pais. Saudades? Também. Mas com objectivo de pedir mais dinheiro para “fotocópias”.

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