Domingo, Outubro 17, 2021
Lifestyle

Os filhos da mãe, e os filhos da violência doméstica

Viviam numa casa branca, com três quartos, uma grande sala e uma cozinha com lareira. Havia um jardim com canteiros. Alguns com rosas, outros com ervas daninhas. Tinham um cão que ficava preso na casota, todos os dias e todas as noites. Não eram pobres, mas o dinheiro nem sempre enchia os bolsos daquela família. 

Casaram-se porque tinha de ser. Antigamente era o ter de ser que sustentava os critérios do casamento. Bastava que ele trabalhasse e que ela soubesse cuidar da casa. Talvez ela se tenha apaixonado por ele, ou pela ideia que tinha dele. Contudo, a distância emocional com que ele tinha sido criado, não deixava espaço para o amor. 

Ela era uma mulher muito bonita, e de boas famílias. Ele era um bon vivant que ajudava os avós na padaria. 

Tiveram cinco filhos, que aprenderam desde cedo ordens como “não digas ao pai”. Uma frase que normalmente seria dita entre irmãos, quando partem o pote que está em cima da mesa, era dita frequentemente pela mãe. O pai, de facto, não podia saber de nada, que tudo era motivo para discussão. Os brinquedos fora do sítio, a roupa suja de terra, o ranho do nariz, o talher que caía ao chão, etc. 

A mãe que nunca arranjou nenhum emprego, porque o pai não permitia, criou os cinco filhos, além de tomar conta do marido que dava mais trabalho do que qualquer recém nascido. Era a única que cuidava da casa. Fazia o pequeno-almoço, almoço e jantar para todos. E ai da mãe, a mulher da casa, se não tivesse o jantar pronto a horas. O pai não poupava insultos à frente dos filhos. 

O pai dizia que a mãe era porca, uma puta que sem ele nunca seria nada. “Se fosse com outro homem queria ver onde estavas.” 

Batia-lhe. Batia-lhe tanto. Os filhos presenciavam as bofetadas, encontros e puxões de cabelo, e gritavam para que ele parasse. Mas ele não parava. Saía de casa e voltava de madrugada, bêbedo e com cheiro a tabaco e perfume de mulher. 

Este comportamento era tão frequente, que a mãe começou a pensar que a discussão era para ele uma desculpa para sair de casa e ir beber com os amigos. “A culpa é tua que não me dás sossego dentro da minha própria casa. Ando lá fora e ninguém me chateia, e aqui é sempre a mesma merda. Qualquer dia eu digo-te como é que é.”

Os filhos acordavam a meio da noite, sobressaltados com o barulho da porta a abrir. O medo era tal que não adormeciam enquanto não ouvissem o ronco do pai. 

As manhãs eram marcadas pelo “não faças barulho senão o pai acorda”. Tomavam o pequeno-almoço pelo caminho da escola, cheios de sono e cheios de medo que o pai acordasse mal disposto e batesse na mãe.  

Muitas vezes confidenciavam à mãe que tinha medo que o pai lhe batesse tanto até a matar. Todos choravam. 

Na escola adormeciam, e eram punidos pela professora e gozados pelos colegas. Nem sempre havia tempo para tomarem banho porque a mãe, que nem tinha dormido, tinha de estar em casa quando o pai acordasse. Era tudo a correr, em stress. As roupas não eram as melhores o que motivam os colegas a os excluírem. Também não havia tempo para ela preparar o lanche para o recreio, e os filhos passavam a manhã toda sem comer. Os mais novos faziam xixi nas calças quando a professora os repreendia por qualquer motivo. Uns choravam, outros agrediam-se. Começaram a ser rotulados como “crianças com problemas”, quando o único problema que havia era aquele pai. 

Chegavam a casa e a mãe e nem sempre havia comida disponível. A mãe tinha adormecido depois do pai sair, para compensar a noite toda em claro. Ela não tinha culpa, tinha apenas sono e cansaço. 

O dinheiro voava. E a mãe tentava arranjar solução procurando empregos, mas o pai, inseguro e desconfiado, queria uma mulher submissa e controlada. Bateu-lhe, várias vezes, por ela querer ser independente. “Achas que alguém te aceita para fazeres alguma coisa? Nem a quarta classe tens, sua burra.”

Os filhos ouviam reclamações constantes. “A vossa mãe não presta para nada, se não fosse eu, queria ver.” 

E quando o pai começou a perceber que os filhos tomavam partido da mãe, começou a fazer o mesmo com eles. “Cambada de burros, vocês não vão ser ninguém na vida, não sabem nada. Se não fosse eu queria ver.”

Os filhos cresceram no meio deste filme de terror, sem intervalos. O pai, um agressor, manipulador e desprovido de sentimentos anulou a mãe e anulou os filhos. 

Os filhos não podiam fazer nada fora da rotina do pai, pois tinham até medo de pedir. Escondiam as notas más da escola, faltavam à festa de aniversário dos colegas, aos passeios organizados pelos amigos e passavam as férias sempre em casa. O pai pensava que “cortando as asas” aos filhos, eles ficariam sempre sob o seu comando. 

Os filhos tentavam, mais tarde, proteger a mãe quando o pai a agredia, mas o pai também lhes batia. E como foram criados com medo, tinham medo de o enfrentar. Acabavam todos a chorar, exaustos da vida. O pai saía de casa, como sempre. 

O pai sempre teve amantes. Toda a gente sabia. A mãe, sem fontes de rendimento e com medo da reação dele, nunca foi capaz de denunciar. Tentou sempre “ir andando” para que os filhos não sofressem ainda mais. Ela não conseguia avançar. A mãe fez sempre o melhor que sabia. A mãe sentia vergonha daquela situação e receio do que poderia acontecer com ela. 

O pai foi envelhecendo. A mãe também. Os filhos foram crescendo e saindo de casa. A mãe vive sozinha com o pai. 

Um dos filhos vive em constante medo que ele faça alguma coisa contra a mãe, mas nada faz sem a permissão dela. A mãe diz que o pai já não lhe bate nem a ofende como antes. Diz também que vai aguentando. As comunicações com o pai são limitadas e em momento algum o contraria. Faz de tudo para evitar conflito com o pai, com receio que ele descarregue na mãe. Este filho tornou-se inseguro, frágil e vive em medo de tudo e todos. 

Um outro filho vive também medo que o pai ainda bata na mãe, mas é incapaz de o denunciar. Tem medo da reação do pai. E trata-o como se ele fosse uma vítima. Muitas vezes reclama com a mãe por esta agir de forma contrária às ideias do pai. Este filho tornou-se agressor com as mulheres, manipulador e frustrado. 

O terceiro filho que vive com mágoa e arrependimento, reconhece que o pai devia ser denunciado e pagar pelo que fez, mas decidiu abandonar essa história e ir viver a vida dele. 

A filha casou com outro agressor que nem sequer lhe permite visitar a mãe. Aceita que o marido lhe diga exactamente o que o pai lhe dizia quando ela era adolescente. “Não sais de casa assim, com essa roupa, a parecer uma puta” 

O quinto filho suicidou-se há 4 anos por não aguentar os problemas psicológicos que foram atenuados pelo consumo de drogas e álcool ao longo da sua adolescência. A mãe culpa-se constantemente por isto. Ela não vive. Sobrevive. 

 

E este pai, um filho da puta, fez seis vítimas de um ego monstruoso promovendo o terror em prol dos seus próprios medos e frustrações.

 

Esta história chegou até mim na semana passada, contada na primeira pessoa. Decidi partilhar, com a autorização do mesmo, porque me parece a média daquilo que acontece em milhares de casas neste país. 

Espero que pais como este sejam denunciados na primeira palavra ofensiva ou na primeira bofetada. Espero que as mulheres percam o medo e a vergonha. Espero também que os orgãos competentes ajam em conformidade com esta fatalidade que é a violência doméstica. Espero que os filhos sejam acompanhados e poupados a histórias como esta. Espero mais amor e mais respeito. Espero que os agressores paguem por todo o mal que causam. Espero que as ditas feministas se preocupem mais com casos destes do que com o direito ao pêlo na axila. Espero que haja punição severa para quem bate e para quem mata. Espero que as crianças e os adolescentes deste mundo sejam influenciados positivamente por esta causa, e se tornem adultos defensores da igualdade de género. 

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