Terça-feira, Maio 11, 2021
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Os pais não envelhecem, pois não?

Os meus pais, parecem sempre iguais ao que sempre foram. Congelados no tempo. O rosto deles, para mim, é exactamente igual ao rosto que conheci há quase trinta anos atrás. Assim como os mesmos gestos, a mesma forma de estar, a mesma forma de chamar pelo meu nome… Chamam-me à atenção para uma ruga a mais, que quase nem dou por ela, ou um cabelo branco, aqui e acolá, que só reparo quando eles estão distraídos.

Passaram todos estes anos, já fiz tantas coisas, e eles, lá, sem envelhecerem.

Sempre tive dificuldade em defini-los. Quando me perguntavam, como são os teus pais?, eu entrava numa espiral de conceitos, que nunca me pareciam suficientes. Acabava por dizer, “ora, então, pais são pais. São bons pais”. E seguidamente, sentia um arrependimento gigante por não ter dito o quanto eles eram importantes para mim, o quanto me ensinaram a ser e não ser, ou como me entretinham quando eu estava entediada. A minha mãe era boa a levar-me para um mundo imaginário, que tantas vezes me acolheu.

Mas e como são? Até hoje, dou voltas à cabeça, numa tentativa falhada de os definir. Sinto falta de capacidades para juntar as palavras certas, de forma justa na sua definição.

Sei apenas que não envelhecem. Filhos da mãe, como conseguem?

Eu troquei a fralda pelo penico, acabei a quarta classe de franja, fiquei menstruada aos treze anos, tive tantos namorados como tive diferentes cortes de cabelo, perdi a virgindade e apaixonei-me tantas vezes, inscrevi-me na faculdade, tirei cursos profissionais, cortei o cabelo, arranjei empregos, saí fora do país e voltei para o país, voltei a entrar na faculdade, saí de casa cinco vezes, e eles… sempre iguais. Pais, como conseguem?

Cresci com os meus quatro avós. Três morreram de velhice. E, sem desvalorizar o que significam para mim, eram os “avós”. Agora que partiram, analiso o processo natural determinado pela vida, e penso que a seguir são os pais, se tudo seguir os trâmites normais. Como se reage?

Os meus pais foram óptimos na educação que me deram, mas falharam num ponto essencial à minha sobrevivência emocional. Esqueceram-se de me preparar para a velhice deles. Esqueceram-se de me ensinar como lidar com a ruptura da imagem de uns pais fortes para uns pais frágeis, que, inversamente ao meu conceito de pais, os transforma em filhos. Os meus filhos, a quem eu vou ter de retribuir os laços que me ancoraram nos melhores e piores momentos. E nessa retribuição, restará a saudade de quem ainda temos, fundida num abraço apertado, que nem sempre damos.

A minha mãe faz anos, amanhã. E hoje, fui invadida pela crua certeza de que o tempo passa a correr, sem nunca voltar atrás. Estou num mistura de gratidão, com nostalgia e lamechismo. Aturem-me.

2 thoughts on “Os pais não envelhecem, pois não?

  1. Parabéns à mãe 🙂 e assim como para os pais somos sempre pequenos, para nós eles serão sempre fortes e presentes e… Pais, porque eles próprios têm de se sentir invencíveis para serem essa força da natureza que nos ampara sempre. Nunca nos poderiam preparar para o que eles próprios não são,porque dessa fraqueza não reza a paternidade 🙂 Gosto muito de te ler. Beijocas 🙂

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