Terça-feira, Maio 11, 2021
Lifestyle

Sim, aceitem-se. Mas não é preciso mandar convite

Uma das esperanças que tenho na humanidade é o término das festas de casamento. Nada contra o casamento. Eu própria irei casar. O meu problema é com as bodas.

Tudo começa com os convites. Qual o grau de proximidade que temos com os noivos, que nos permite aceitar o convite de bom grado? Ou, como dizemos que não queremos ir ao casamento do primo do tio do primo da prima, que só vimos uma vez na vida?

Começo a pensar no outfit, um mês antes do casamento. Dou uma abanadela aos cabides, e cinco minutos depois, decido que levo o vestido do casamento anterior. Mas lá vem a minha mãe, fazer com que pense nas pessoas que já me viram com aquele vestido, nas fotografias em que vou estar toda igual, e no que as outras mulheres vão pensar (e as mulheres reparam sempre nessas coisas). Digo-lhe que as pessoas são estúpidas. Mas a minha mãe sempre controlou o meu mundo, sem que eu suspeitasse. Sigo então para o shopping, e o meu dia torna-se digno de um drama estupidamente iterativo. Vem a escolha do vestido, com ou sem costas, curto ou comprido, decotado ou tapado até ao manúbrio. (O tecido e a cor do vestido é considerável, dependendo do corte que tem nos braços. Já imaginaram uma mancha de suor a circundar a axila? Pois é! Porque não casam no Inverno? Era tudo tão mais fácil). Vestido? Check. E agora, sapatos a combinar? Corro todas as lojas do shopping, sem encontrar uns sapatos que fiquem bem naquele vestido. Merda para o vestido. Devia ter comprado outra cor. Acabo por escolher saltos pretos. Ficam sempre bem com tudo. Questiono-me sempre se o espaço vai ter paralelos, descidas ou subidas incompatíveis com os quinze centímetros debaixo dos meus pés. Agora a carteira. Sei que vou usar a pochete uma ou duas vezes na vida, portanto, tento procurar um preço acessível. Mas onde se encontra uma pochete barata nesta altura do ano? Compro uma preta também, semelhante à do ano passado que ficou a apodrecer fora da caixa. Depois da escolha do outfit, é só esperar, e ter cuidado para não engordar nem emagrecer. (Noivas, estamos juntas)

Vem o dia. O meu, começa sempre mal. A maquilhagem tem de estar perfeita para as fotografias, e eu não sei maquilhar-me. A miopia atraiçoa-me, e vou sempre com uma bochecha mais marcada do que a outra. Coloco um creme hidratante com cor. Tento colocar eyeliner, sem tremeliques, e remato com a máscara. Faço uns cachos no cabelo e sinto que estou pronta. Dou umas trincas nas bolachas, seguras pelas pontas dos dedos, enquanto me inclino ligeiramente para frente, com receio de manchar o vestido. E saio de casa, a sentir-me poderosa.

Selfies pelo caminho. Selfies no carro. Selfies no espelho.

Chego à quinta. Parece tudo tão perfeito e tão branco. A moda agora é dar um tema ao casamento. E alguém que me elucide. O tema do casamento, não é… o casamento? O meu irmão vai casar, e partilhou comigo que o tema do casamento será viagens. Pensei que estivesse a brincar comigo, mas fui pesquisar, e de facto, o que parece ser uma moda, eu considero uma epidemia.

Vem a cerimónia. Ora senta, ora levanta. Ora sorri, ora chora. E eu não paro de pensar na comida deliciosa que estava na mesa das entradas. A verdade é que vim com o espirito de comer (e beber também) tudo o que me apetecer. É como se estivesse a tentar tirar proveito da minha prenda de casamento. Não devia dizer isto, eu sei. Fica mal. Assim como fica mal não sorrir para todas as fotografias. Pelo amor de deus. O meu maxilar dói, no final do dia, de tanto forçar sorrisos. Eu sei que o dia é todo feliz, mas eu não consigo estar sempre com aquele sorriso equilibrado, a mostrar apenas os dentes de cima.

O casamento é um emaranhado de imprecisões, que começa no banquete.

Vem as fotografias. Há uma parte do casamento, antes de comer, em que os noivos tiram fotografias com os convidados. Deixem-me dizer-vos, noivos, que esse tempo na fila de espera é insuportável, e não vale assim tanto a pena. Quando chega a nossa vez, há uma expressão deprimente de quem esteve meia hora em cima de saltos agulha, a tentar manter o sorriso. Como esperam que fique bem? (E não é justo, ter apenas uma única oportunidade para ficar bem na fotografia, que recordará aquele dia).

A noite é a minha melhor amiga. Já estou ambientada, o álcool já está instalado, e finalmente, relaxo. Sinto que estou a gostar. Até que vem a parte do bolo. Nesta fase, eu já não consigo manter a barriga encolhida, e nota-se uma saliência gravídica no meu vestido. Tento manter a concentração, mas lá vem a parte em que os noivos aparecem, e os convidados acendem mini foguetes. (Mini-foguetes, estão a gozar comigo?) Mini-foguetes perto da minha cabeça, não me parece uma boa conjuntura. Esqueço a banha e o bolo. Afasto-me, e sinto que perco o momento ideal para tirar fotografias excelentes para o Instagram. Decisões.

Decido ir embora. Chego a casa, e sinto um alívio enorme em tirar os sapatos e o vestido. Deito-me na cama, e não quero saber das células no meu rosto que vão envelhecer, por não retirar a maquilhagem. Decido também não voltar a aceitar convites para este banquete. Mas ao mesmo tempo (sim, sou uma dicotomia), gostei. Gostei e, por muito que desejasse que os meus amigos dissessem SIM, apenas na conservatória, sei que vou continuar a deitar uma (pequena) lágrima, pelo canto do olho, quando eles prometerem amar-se para sempre.

 

P.S: Se, por qualquer motivo, tiverem de reduzir a lista de convidados, já sabem que não me importo nada se não receber convite.

One thought on “Sim, aceitem-se. Mas não é preciso mandar convite

  1. Boa noite,
    A base é essa depois há algumas flutuações consoante o dia de mais ou menos calor, maior ou menor proximidade com os noivos, o par (ou a ausência dele!), o momento do bouquet está totalmente démodé (já não se pode!).

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