Sábado, Julho 31, 2021
Salvem a TV

Quem quis casar com a mãe daquele filho?

Estreou na TVI um programa bastante interessante na óptica do machismo.

Os concorrentes “principais”, digamos assim, são homens acompanhados pelas suas mães que têm como função seleccionar possíveis mulheres “às direitas”, seguindo alguns critérios.

Um dos concorrentes, com uma mãe bastante firma nas suas convicções, dispensa mulheres “espalhafatosas” e está ansioso por avaliar o exterior da mulher, ou a “embalagem” como ele referiu. Para fazê-lo feliz é preciso que haja confiança, respeito e sinceridade, no entanto, este jovem moço passa a palavra (assim como as decisões) para a senhora sua mãe, a Zezinha, que considera uma das correntes “muito velha” para o filho adorado, assim como demasiado responsável por esta já ter a seu cargo 3 filhas. O filho apenas quer saber o que as candidatas gostam de fazer nos tempos livres, no entanto, a sua mãe apenas quer saber se as candidatas sabem cozinhar, se estão divorciadas ou não, que idade têm, ou quantos namorados já tiveram. Esta mãe… ai ai

O segundo concorrente que procura uma princesa que o acompanhe até à margem sul, assume que tem um feitio difícil. Por outras palavras, assume que gosta muito de mulheres e é possessivo. A sua mãe, com um ar queridíssimo, quer que o filho case com uma mulher loira e mais velha (a cor do cabelo é, de facto, muito importante nestas coisas do casamento). Esta mãe querida torce o nariz assim que vê as candidatas (Quem mandou vestir aquelas roupas). Sem fundamento, arruma logo para canto as candidatas que aparentemente não lhe agradam. “Sabes cozinhar?” continua a ser uma questão frequente, e esta mãe avisa desde cedo que este é um dos critérios fundamentais para a selecção da futura esposa, assim como as roupas que vestem, mas isto ela não avisa.

O terceiro menino, ou melhor, a mãe do terceiro menino idealiza uma nora humilde, educada, com dentes brancos, com mamas razoáveis e um rabo que se veja. –Vamos para aqui? É que eu acho que esta old lady meteu muitos broncos no bolso, com este comentário.- No entanto, esta experiente mãe, foi levada na conversa de uma actriz pornográfica que refere a Santa Casa da Misericórdia como o seu antigo posto de trabalho. –Se alguém souber onde é esse bar que deixe aí nos comentários, sff.- Fumadoras não são bem recebidas, assim como candidatas que sejam mães.

O quarto moço que já habita este mundo há 21 anos, e tem como exemplo feminino a sua bela e jovem mãe, procura uma mulher que goste de cavalos e que seja bonita e aventureira para passear de jipe, no meio do mato. O menino não gosta de mulheres com quilos a mais e, portanto, serão eliminadas. Ele e a sua belíssima mãe preocupam-se demasiado com a idade das candidatas, pois são “velhas” para o filho, e também com a quantidade de homens com quem já tiveram um caso. Até que chega a pita de 18 anos que diz gostar de ouvir “kizombo”, e o encanta com a sua maquilhagem instagrámica.

O quinto homem, à excepção de gordas que não levam soutien por baixo do vestido de alças finas, tem ar de quem come tudo o que mexe.

Bom, vou só ali respirar fundo e já volto.

Como é que num país onde há poucos dias se celebrou o dia da mulher com flores, poema, artigos, imagens, manifestações, acções de sensibilização para a violência doméstica e direitos da mulher, apresenta um programa em que a mulher tem um papel altamente submisso? Isto na era medieval ia funcionar bem, em 2019 já não é bem assim.

Resumindo: 

O programa define então que a mulher perfeita para casar tem de saber cozinhar, pois alguém terá de preparar as refeições do marido. Não pode fumar, porque fica mal a uma mulher, assim como beber uns copos em bares e discotecas. Não deve ter filhos de outros relacionamentos, nem deve ser divorciada. Não deve ter tido muitos relacionamentos passados, nem de pouca duração. A mulher ideal não deve ter quilos a mais nem quilos a menos, nem deve ser muito alta nem muito baixa. Não é aconselhável vestir uma roupa muito decotada ou vestir uma saia que mostre as coxas de forma provocadora. Deve gostar de fazer as mesmas actividades que o marido gosta.

O que o programa refere indirectamente é o seguinte:

A mulher deve ser submissa. A mulher deve acompanhar o marido nos seus interesses, desvalorizando os seus. A mulher deve cozinhar para o marido. A mulher deve ser caseira e não se expor demasiado. A mulher não pode ter muitos relacionamentos, nem deve divorciar-se dos pais dos seus filhos. A mulher não deve ter vícios nem prazeres. A mulher é do homem.

Que revolta! Que vergonha! Que miséria de filho e que miséria de mãe!

O que me preocupa mais é o facto de existirem mulheres capazes de se colocarem nesta posição inferiorizada à custa de nada. Vou parar por aqui pois já estou com muita vontade de começar a dizer, no meu português mais cru e nortenho, o que eu penso destas “mães” que cooperam com a coisificação da mulher.

Milhares de mulheres a lutarem por direitos e pela vida, e depois há outras que, a troco de nada, vêm estragar tudo. 

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